Última quilombola de Vinhedo é derrubada

Fonte: iG Paulista – 28/02/2015 – 05h00 | Gustavo Abdel | gustado.abdel@rac.com.br

Trator demoliu a casa simples erguida com tijolos centenários

Foto: Divulgação
Trator demoliu a casa simples erguida com tijolos centenários
A cada passo que a aproximava de sua antiga casa, latidos de felicidade em reencontrar a dona ecoavam em meio as árvores. Os vira-latas Maicon, Mailon, Billy, Pingo e Liro recepcionaram Lúcia Aparecido, de 60 anos, assim que ela despontou no final da trilha, como se não a vissem há anos. Mas somente dois dias separavam aquela senhora de suas crias, deixadas por lá após cumprir às pressas uma ordem de despejo da Fazenda Cachoeira, na última terça-feira. A casa simples erguida com tijolos centenários foi ao chão na sexta-feira, demolida por um trator. Lúcia apenas lamenta que a história da última comunidade quilombola de Vinhedo termine de repente.

Na quinta-feira (27), a aposentada voltou até a fazenda e o acesso que de costume fazia para chegar até sua casa já estava cercado com arames. Conhecedora há 58 anos de cada palmo daquela terra, “picou” outra trilha e chegou na mais antiga casa de colono da fazenda. Foi ver como estavam os cachorros, galinhas e pegar um ou dois pertences que haviam ficado para trás no dia da mudança repentina.

Além da bolsa pesada, carregava debaixo do braço o diploma de mérito Zumbi dos Palmares, recebido na Câmara vinhedense em 2013, como sendo a representante da família afrodescendente mais antiga a residir na Cachoeira.

História chega ao fim

“Meu avô Sebastião Mateus trabalhou desde os 12 anos nessa fazenda, como escravo do café. Ele quem construiu essa casa. Já temos cinco gerações de família Aparecido que viveram nesse lugar”, contou. “Agora o que faço com meu diploma? Minha família foi toda esparramada e nossa identidade está perdida. Se me derem uma mansão e um rancho no mato, escolho o mato. Minha vida é a natureza, meus animais, a terra. Pensei que iria sair daqui somente para o ‘campo da morte’”, disse, desabando no choro. Lúcia e seus outros nove parentes, inclusive filho, que moravam na fazenda estão espalhados desde o despejo, segundo ela.

A Prefeitura de Vinhedo garantiu que busca um imóvel para Lúcia e que arcará os custos com o aluguel social até ela encontrar um lugar definitivo para viver. Até então, a aposentada está em um serviço de acolhimento no bairro Três Irmãos, para onde também foram filho e um irmão. “Mas ela preferiu ficar na casa de uma amiga. Ela já é atendida pela assistência social há cinco anos”, informou a Administração, através da assessoria de imprensa.

Novos donos

A ordem de despejo foi em decorrência de um processo que já dura mais de seis anos, desde quando a fazenda foi adquirida por outros proprietários, herdeiros de Celina Cunha Bueno — única contemplada no testamento da antiga proprietária, baronesa Leontina Monteiro de Barros, para quem o avô de Lúcia trabalhou na lavoura.

A fazenda possui uma área de quase 2 milhões de metros quadrados e nela estão as três represas que abastecem boa parte de Vinhedo. Lá também está a histórica casa sede e aproximadamente 20 nascentes, além de vegetações remanescentes de Mata Atlântica e Cerrado. Aos poucos, os colonos foram sendo despejados.

Loteamentos

Em julho do ano passado, portanto, a então Gálatas Empreendimentos e Participações, hoje com o nome de Companhia Fazenda Cachoeira, apresentou ao prefeito Jaime Cruz (PV) a proposta de doação ao município de 800 mil metros quadrados da fazenda (equivalente a 96 campos de futebol), incluindo a sede da fazenda, entorno, área institucional e preservação de mananciais, para que, em contrapartida, a Prefeitura pudesse viabilizar, através de mudanças no Plano Diretor, a autorização para implantação de um empreendimento residencial com 400 lotes de até mil metros quadrados cada, na parte superior da fazenda.

Na ocasião, o prefeito divulgou que a proposta era interessante, “afinal poderemos criar um grande Parque Verde numa área nobre da cidade, preservando um patrimônio histórico, que é a sede e o entorno da Fazenda Cachoeira, sem contar o compromisso da empresa em preservar todos os mananciais na área que pretende implantar o empreendimento, localizada num pasto que sofre periodicamente com queimadas”, afirmou.

Entretanto, o prefeito também frisou que a decisão não seria unilateral e que o processo passaria pela avaliação do Conselho de Desenvolvimento do Meio Ambiente (Condema), Legislativo, audiências públicas e pela Promotoria.

R$ 30 milhões

Esta semana, o prefeito informou que a municipalidade não teria condições de comprar a fazenda — que vale em torno de R$ 30 milhões —, pois também não é prioridade do governo no momento. “Nada está definido em relação à Fazenda Cachoeira e o entorno da mesma. Tudo será conduzido dentro dos processos legais”, disse. Uma organização não-governamental da cidade foi contratada pela proprietária da fazenda para fazer um levantamento da fauna, flora e questões hídricas para ver a possibilidade de modificar a legislação e liberar a área para o loteamento.

“Pelo que estou sabendo esses levantamentos da área já estão prontos e devem ser apresentados em breve. Se identificarmos que haverá prejuízos ao meio ambiente, não vamos mudar (o Plano Diretor). Mas ainda acredito que é possível unir as propostas com sustentabilidade ambiental”, disse o vereador Edu Gelmi (PMDB), presidente da Comissão Especial de Assuntos Relevantes da Câmara.

A reportagem esteve na fazenda e um dos administradores, quando indagados sobre o despejo da moradora Lúcia disse: “Está tudo certo. Podem ir embora, não tem nada aqui”.

Mobilização para preservar

O movimento “A Fazenda Cachoeira é nossa” , formada por mais de 20 integrantes, busca de todas as maneiras – uma delas é fazer vigília para que a casa de Lúcia Aparecido não seja demolida – garantir que a fazenda não se transforme em loteamento. “Existe um movimento em defesa da preservação da área da Fazenda Cachoeira na sua totalidade, por se tratar de patrimônio histórico, cultural e ambiental de valor inestimável. Temos procurado fazer um grande movimento de resistência para que seja desapropriada e transformada num parque ecológico” , expôs Mariana Ormanese, de 27 anos, uma das integrantes do movimento.

Segundo ela, com a venda dos lotes, caso o empreendimento saia do papel, o lucro para a empresa poderá alcançar aproximadamente R$ 200 milhões. Nesta sexta-feira, diante da demolição da casa de Lúcia Aparecido, integrantes do movimento foram até o Fórum de Vinhedo protestar pela manutenção da história do local. O promotor  Rogério Sanches Cunha mostrou que não irá se prender a estudos de impacto ambiental de empresa contratada pela fazenda. “Para mim, terá de haver perícia de assistentes do MP e peritos indicados pelo juiz” , frisou.

Ação judicial

Sanches moveu uma ação civil pública contra a proprietária da fazenda, Prefeitura e governo do Estado requerendo a restauração da casa sede da propriedade do século 19. Na sexta-feira ele esteve na fazenda conferindo quais mudanças haviam sido feitas no casarão. A Prefeitura informou que conseguiu liminar na Justiça se ausentando da responsabilidade de restauro, uma vez que a propriedade é particular.

Quanto a possibilidade de a fazenda ser loteada, o promotor enfatizou que acompanha o caso de perto para que não haja nenhum “retrocesso ambiental”.

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