Porto Alegre cresce pouco?

Por Paulo Roberto Rodrigues Soares*

A última estimativa populacional divulgada pelo IBGE apontou Porto Alegre como a capital com menor crescimento populacional no Brasil. Hoje somos o décimo município em população e provavelmente no próximo Censo Demográfico (2020) não estaremos entre os dez maiores. Isto é bom ou é ruim? Nem um, nem outro: faz parte de um conjunto mais amplo de mudanças econômicas, sociais e culturais que as metrópoles brasileiras passaram ao longo dos últimos 30 anos. O importante não é o tamanho da população de uma cidade e sim a qualidade de vida que esta disfruta e a capacidade dos serviços públicos municipais proporcionarem bem-estar a seus cidadãos.

E por que a população de Porto Alegre cresce pouco? Primeiramente, temos que localizar onde está este crescimento populacional. É normal nas regiões metropolitanas em todo o mundo um menor crescimento das cidades centrais (metrópoles) em detrimento das periferias (área metropolitana) pobres ou ricas. Assim, o crescimento de Porto Alegre pode estar ocorrendo no território de outros municípios. Segundo, o Rio Grande do Sul, por suas características sócio-demográficas e culturais é o estado com menor crescimento vegetativo do Brasil. Terceiro, Porto Alegre tem apresentado – desde a década de 1980 – menor crescimento que a Região Metropolitana (RMPA), por diversos motivos, entre eles o custo de vida e dos imóveis (mais elevados na capital) e a oferta de emprego industrial nos municípios metropolitanos, uma vez que somos cada vez mais uma cidade de serviços. Isto não quer dizer que não haja mobilidade demográfica no município. O baixo crescimento da população de Porto Alegre é na verdade um “saldo migratório”. A capital perde população (entre eles aposentados, famílias jovens), mas também recebe um afluxo de novos imigrantes, especialmente jovens em busca de oportunidades de estudo e emprego. Hoje é possível visualizar inclusive imigrantes do exterior que vem para a cidade.

A capital faz parte de uma Região Metropolitana que tem seu ritmo próprio de crescimento populacional. Alguns municípios limítrofes à Porto Alegre, como Alvorada, Viamão e Gravataí tem um crescimento maior, atraindo população. Neles há oferta de imóveis em condomínios fechados, por exemplo, a preços menores que na capital. Também a RMPA é uma das poucas regiões metropolitanas do Brasil onde existem cidades com indústria, comércio e serviços com capacidade de atender a sua população e a de outros núcleos metropolitanos. Outras capitais que crescem mais rapidamente que Porto Alegre (por exemplo, Manaus, Salvador e Fortaleza) não sofrem esta “concorrência”, sendo circundadas por municípios pouco dinâmicos economicamente, por isso atraem migrantes para diretamente o seu território.
Uma última, mas não menos importante questão: apesar do baixo crescimento demográfico o parque imobiliário da cidade continua crescendo. Entre 2010 e 2014 a população cresceu em 63 mil pessoas, enquanto que segundo o Censo da Construção foram construídos quase 30 mil imóveis novos na capital. Somados aos imóveis desocupados (quase 50 mil no Censo de 2010) estes poderiam solucionar nosso déficit habitacional. Isto se esta produção não estivesse orientada para e pelo “mercado”. Assim, o próprio mercado imobiliário deve estar atento às mudanças sociodemográficas para fugir do risco da “superprodução de imóveis”. Também o poder público deve pensar melhor e democraticamente a produção da cidade para evitar que mesmo que a população total não cresça numericamente, a massa de excluídos do “direito à cidade” continue crescendo. Isto inclui uma política voltada para a produção de moradia popular de qualidade e bem localizada. Não estamos crescendo numericamente, mas a cidade se espraia cada vez mais, enviando os mais pobres – aqueles que mais sofrem com a (i)mobilidade urbana e a carência de serviços públicos – para a “hiperperiferia”. Eis uma questão importante para planejarmos a cidade que queremos para o século XXI.*Departamento de Geografia da UFRGS e Observatório das Metrópoles.
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