Disputas pela Cidade: Movimento de ocupações urbanas em Foz do Iguaçu e o tratamento pela mídia local

FONTE: RedeMegafone

Lucas Eduardo Gaspar (UNIOESTE)

“Não é o que se quer, mas é o que se vê,

Nem um terço do que se passa aqui eles mostram na TV.

A Tv te mostrou que assim era o certo,

Que você tinha que ser humano esperto

Aqui agora vai vendo como a mídia é criminal,

Usa assalto assassinato pra vender comercial.”

(Unidos da Periferia, Por Trás da Cortina)

Segundo Julia, moradora da ocupação ocorrida em Foz do Iguaçu no início do ano de 2013, “Olha depois que agente resolveu parar, nóis não dá mais reportagem, parou, porque tudo que agente falava eles mudavam, eles colocavam na mídia o que eles queriam, não mostravam a realidade”.

É exatamente sobre esta problemática que pretendo tecer algumas reflexões neste trabalho, uso-me aqui de algumas reportagens televisivas feitas pela mídia local a respeito do movimento de ocupações que ocorrem na cidade de Foz do Iguaçu desde o inicio do ano de 2013, para que com elas passa observar qual seu posicionamento e sua intenção em divulgar reportagens sobre as ocupações. Utilizo também das entrevistas realizadas com moradores de ocupação – em específico da chamada “ocupação do Bubas” – para que possa problematizar como estes moradores confirmam ou não estas reportagens, também como as significam e se comportam em relação a elas.

Devemos primeiro analisar quando esse movimento começa na cidade, a partir de que período o processo de urbanização começa a enfrentar problemas, as causas e consequências desses problemas. Para essa reflexão utilizarei aqui a tese de doutorado “Formação Econômica e Social de Foz do Iguaçu: um estudo sobre as memórias constitutivas da cidade”, da historiadora Aparecida Darc de Souza (2009). Souza realiza uma análise historiográfica no primeiro capitulo de sua tese, tentado mostrar como as produções vêm se modificando ao longo das décadas de 1980 a 2000 e como essas produções convergem ou divergem do projeto de criação de uma memória hegemônica sobre a construção da Usina Hidrelétrica de Itaipu e os benefícios trazidos para a cidade de Foz do Iguaçu.

É a partir desse levantamento historiográfico feito por Souza que podemos perceber como os problemas urbanos de Foz do Iguaçu começaram ao mesmo tempo e a mesma medida que a construção e os “benefícios” trazidos pela Usina de Itaipu.  Analisando diversas obras, Souza explicita que, segundo alguns autores, a construção da Usina foi um evento que provocou profundas transformações na cidade de Foz do Iguaçu, distintos dos interesses gerais da população, que teria sido “atropelada pela dinâmica do progresso”. Em síntese, resultaram três grandes problemas para a cidade da construção da Usina de Itaipu: “o aumento da pobreza, a falta de moradia e o aumento da criminalidade.” (SOUZA, 2009, p.48).

O problema da falta de moradia na cidade de Foz do Iguaçu data então do início da construção da Usina de Itaipu, pois a cidade não estava preparada para o contingente de trabalhadores que aquela construção implicava. Itaipu até investiu na construção de residências, mas essas somente atendiam a seus trabalhadores, e não ao restante da população que veio a Foz do Iguaçu, mas acabou por não trabalhar na obra.

Foz do Iguaçu sofreu, com a obra de Itaipu, um acelerado processo de urbanização “que transformou antigas áreas rurais em novos bairros, para acomodar a crescente população atraída pela obra ou expulsa pela formação do lago.” (SOUZA, 2009, p.182) Ao mesmo tempo que isso ocorria, cresciam o número de habitações precárias e favelas em Foz do Iguaçu.

Sabe-se claramente que a mídia, assim como qualquer instituição, não é formada aparte dos sujeitos sociais, de grupos e de interesses. Esta instituição é, exatamente, formada por indivíduos e movida por interesses compartilhados por eles, por isso ao analisarmos qualquer tipo de mídia devemos também analisar qual o grupo que a forma e quais são seus interesses, tanto políticos quanto econômicos e sociais.

As reportagens analisadas foram as vinculadas ao jornal ParanáTV, que é exibido em duas edições diariamente na cidade de Foz do Iguaçu, jornal esse exibido na afiliada da Rede Globo, RPCTV. Diante destas poucas características pode-se ter uma noção básica de quais são os interesses compartilhados, não só pelos grupos que controlam o jornal, mas também das emissoras a que estão ligados, são os interesses das classes dominantes então que prevalecem no conteúdo e sentido do telejornal. Apesar do discurso, sempre presente na mídia, de imparcialidade e preocupação com a comunidade, fica claro, como veremos a seguir, como este telejornal trata as ocupações de modo pejorativo, onde artimanhas para deslegitimá-las saltam aos olhos.

Ao todo foram encontradas e analisada 12 reportagens deste telejornal, que datam desde o fim do ano de 2012 até o segundo semestre de 2013. A primeira reportagem trata de uma manifestação de famílias que vivem em áreas ocupadas na região norte da cidade,estas famílias reivindicavam as moradias que haviam sido prometidas a elas pela prefeitura de Foz do Iguaçu. Segundo o telejornal: “Foi um protesto pacifico, mas cheio de revolta” (PARANATV, 2° Edição, 03/08/2012). Ressaltando como deveria ser uma manifestação, podendo ter revoltas e reclamações, mas sempre pacificas, e, por mais que estes moradores já soubessem até o endereço de suas casas novas e elas já estivessem quase prontas, eles não podem entrar nelas, pois se não estariam invadindo novamente um local que não é seu, perdendo a o caráter pacifico e legitimo da manifestação.

A emissora, em conjunto com a Guarda Municipal de Foz do Iguaçu fizeram um levantamento e divulgação das áreas ocupadas ou com risco de ocupações na cidade, estas áreas vão desde terrenos improdutivos e casas de conjuntos habitacionais à zonas consideradas de risco. Como podemos observar no seguinte mapa:

Mapa 01: Áreas de Foz do Iguaçu ocupadas entre o fim de 2012 e inicio de 2013.

mapa-invasoes

(Mapa Adaptado. Fonte: Paraná TV, Reportagem 17/01/2013)

Os jornais tentam de diversas formas deslegitimar essas ocupações feitas pelos moradores pobres de Foz do Iguaçu. Uma de suas táticas mais comuns é a referência a esses movimentos como invasões de propriedades particulares, tratamento esse que passa um sentido de ilegalidade ao movimento e, apesar de mostrarem falas dos moradores das áreas ocupadas, não deixam claras as causas das ocupações e os motivos da ação desses moradores, perpassando a ideia de que esses sujeitos simplesmente “invadiram” uma casa ou área porque são pobres.  Outro argumento utilizado pelos jornais televisivos, na tentativa de deslegitimar esse movimento de ocupação é em relação às consequências e à segurança da sociedade em geral que essa serie de ocupações trazem para a cidade, pois ,como fala o próprio jornal e depois o  diretor da Guarda Municipal de Foz do Iguaçu, em uma reportagem exibida no  dia 17/01/2013:

Repórter: A Guarda Municipal atendeu 42 ocorrências de invasão desde o inicio desse ano, é mais que os casos de roubos, furtos, prisões e disparos de arma de fogo, no mesmo período somados (PARANÁ TV. 1° Edição. Reportagem: 17/01/2013).

Cleomar: Se você me perguntar nesse sentido: “atrapalha a segurança como um todo?” É, preventivamente atrapalha. Vou ficar só fazendo atendimento nessas áreas, se essa pessoa me ligar e pedir a presença de uma viatura próxima de seu comércio ou à sua rua pra tá fazendo patrulhamento eu vou tá dizendo: “olha, neste momento não vou poder te atender porque estou fazendo um outro tipo de serviço” (PARANÁ TV. 1° Edição. Reportagem: 17/01/2013).

Ou seja, ressaltando a ilegalidade das “invasões” e o comprometimento da paz pública que esta traz para toda a sociedade, a mídia local tem um papel claro em relação a publicização do movimento: o de deslegitimá-lo para o restante da população iguaçuense. Outro exemplo disso desta tentativa de deslegitimação é a tática usada pelo telejornal de sempre contrapor as falas dos moradores entrevistados nas ocupações com a de um agente da Guarda Municipal, Polícia Militar ou até mesmo da própria prefeitura, para que assim estas autoridades “esclareçam” o que esta acontecendo e ao mesmo tempo ressaltando a sua ilegalidade, como podemos observar novamente na fala do inspetor da Guarda Municipal, Cleomar:

 Cleomar: Existe uma política de captação de recursos por parte do município para a construção de casas, para atender essas famílias, como foi dito agora na construção de novos blocos […] A Guarda Municipal tem a manutenção da ordem publica porque ela cuida dos bens , serviços e instalações, então toda vez que ocorre um caso de invasão, né temos que ir lá, conversar com as pessoas, envolver as demais secretarias, FozHabita, Ação Social, pra retirar essas pessoas da área. (PARANÁ TV. 1° Edição. Reportagem: 16/01/2013)

Em relação especificamente a ocupação ocorrida na “área do Bubas”, na região sul da cidade, devido a sua grande proporção, em média 800 famílias ainda continuam no local, podemos notar uma atitude diferente deste mesmo telejornal, que vinculou reportagens sobre esta ocupação desde o seu primeiro mês. Inicialmente, quando ainda não se tinha o numero total de moradores, o jornal “acusava” os sujeitos de terem invadido este terreno pertencente a um grande empresário da cidade e entravam na mesma lista de áreas “invadidas” que eram tanto um problema para a Guarda Municipal quanto um risco para a sociedade em geral.

Após o crescimento desta ocupação o telejornal muda sua forma de mostrá-lo, desta vez:

“percorremos as ruas da invasão, conversamos com os moradores para saber quem são, de onde vieram e porque se submeteram a passar todo esse período em condições precárias para tentar garantir esse direito a moradia.” (PARANÁ TV. 1° Edição. Reportagem: 07/02/2013).

Nesta reportagem, apesar contar com mais falas dos moradores, eles próprios não estavam satisfeitos com o que foi ao ar, e foi justamente após esta matéria em que os moradores começaram a formular suas criticas em relação ao modo em que o telejornal tratava o movimento, foi neste momento então que apareceram as falas descontentes dos moradores nas entrevistas que realizei, como a de Julia já citada no início do trabalho. As comissões dos moradores da ocupação, percebendo este caráter pejorativo que estavam ganhando as reportagens decidiram não mais dar entrevistas para o telejornal, até que ele se comprometesse em mudar sua postura.

Estas elaborações dos moradores são de grande importância, pois mostram como eles estão cientes tanto da condição que estão vivendo quanto do caráter que o movimento havia ganhado nas reportagens, e mais, decidiram até mesmo lutar contra isso e a maneira que encontraram para enfrentar a mídia local foi a não realização de mais entrevistas. A fala de um morador entrevistado explicita esta indignação:

 Rafael: Na verdade, na minha opinião, a televisão, a mídia, ela sempre distorce, como nóis mesmo já demo muita entrevista, como eu mesmo já di muita entrevista, agente fala uma coisa, chega lá eles cortam a metade, o que é o básico que é que o pessoal tá aqui interessado não de tomar terra de ninguém, que é que eles tão querendo ganhar a casa, eles já distorce, disconversa, as vezes fica te chato pro nosso lado né?

A fala de Julia é ainda mais incisiva:

 Julia: porque se nós somos tratados como bicho, então vamo agir como bicho, se eles trataram nós como bicho vamo agir como bicho, então nós não dá mais reportagem até que eles mudem também, que eles enxerguem que aqui tem mulheres tem criança, nós temos né? Nós temos famílias aqui que tem 9, 12 criança morando debaixo do barraco, é uma situação bem difícil pro pessoal, então eu acho que a mídia não favoreceu nós, e nem nóis a eles então.

Esta ação expressava toda a revolta dos moradores da ocupação, pois, por diversas vezes nas entrevistas quando questionados sobre o tratamento que a sociedade e o Poder Público estava dando ao movimento, foi comum ouvir a palavra “bicho”, de que estavam sendo tratados como “bichos”, os moradores viram nas reportagens, que não mostravam a sua realidade, como um meio de divulgar esta visão por toda a cidade e convencimento da população que estes moradores realmente eram “bichos”.

Somente em agosto de 2013 foi exibida uma reportagem do mesmo jornal que mostrava novamente a situação dos moradores, neste momento já havia sido decidido o que iria ocorrer com a ocupação, que os moradores dali iriam ser transferidos para um outro terreno da prefeitura onde ganhariam sua casa. Somente depois disso é que o telejornal pode realizar uma nova reportagem com os  moradores, reportagem essa que tinha as mesmas intenções da vista acima:

 Repórter: essa semana nós fomos lá, percorrer essa área, pra saber quem são essas pessoas, de onde vieram essas famílias e o que elas querem pra sair de lá, já que é um terreno particular que pertence ao empresário Francisco Bubas aqui de Foz do Iguaçu, como está essa regularização? (PARANÁ TV. 1° Edição. Reportagem: 07/08/2013)

Nesta reportagem podemos notar novamente a mudança de sentido dado ao movimento, neste ponto, onde já estava decidido a remoção dos moradores dali, houve uma diminuição do caráter pejorativo em que o jornal constantemente vinha construindo para esta ocupação. Desta vez a reportagem ressalta o quanto a área praticamente se tornou uma cidade, de casas, apesar de precárias, serem padronizadas, de que há comercio e até prestação de serviço, como podemos nas seguintes falas:

 Repórter: terreno com mais de 40 hectares brotou uma cidade de barracos […]os barracos seguem quase todos o mesmo padrão, […] A invasão ocorreu em janeiro deste ano, e de lá pra cá só aumentou, hoje já é quase uma vila independente, tem comércio próprio e até prestação de serviço (PARANATV. 1° Edição, Reportagem: 07/08/2013).

Logicamente que esta reportagem não mostra somente o crescimento do movimento, mostra também as dificuldades estruturais encontradas e vivenciadas pelos moradores, mas é interessante notar como nesta reportagem, que foi apresentada quase 6 meses depois da primeira que tinha a mesma intenção, acabou por mudar alguns de seus elementos, acrescentando características e informações que não poderiam aparecer em sua primeira versão. Claro que esta mudança esta relacionada diretamente com as mudanças estruturais que ocorreram durante o tempo nesta ocupação, mas ela também está intimamente ligada com o repudio dos moradores ao jornal e também ao desfecho que estava tomando o movimento, foram por esses elementos que o jornal viu necessidade de mudar o discurso de suas reportagens.

Apesar destas alterações no caráter das reportagens que tratavam o movimento de ocupação da área do Bubas, ainda podia-se notar nesta reportagem um alguns elementos que atacavam o movimento, não um ataque direto, mas que pode ser percebido durante algumas formulações desta reportagem que tenta, ainda, deslegitimar o movimento, um exemplo disso é a amostra das “contradições sociais e econômicas” dos integrantes do movimento e também da “hierarquia” que há dentro dele, explícitos nos seguintes momentos:

 Repórter: A invasão também revela alguns contrastes, carros nas garagens e até uma camionete de luxo numa moradia, esse barraco aqui foi erguido apenas para abrigar uma motocicleta outras casas estão completamente vazias […] Maria é uma espécie de delegada do lugar, pra não virar bagunça ela comanda a vizinhança com muita rigidez (PARANÁ TV. 1° Edição. Reportagem: 07/08/2013).

As informações de sujeitos que ocuparam esta área sem a real necessidade econômica também é constatada pelos integrantes do movimento nas entrevistas realizadas, em momento algum, em todas as entrevistas foi negado que haveriam sujeitos na ocupação com casa próprio ou carros. Como este elemento aparece nas duas falas – entrevistas e reportagem – o que as difere então é o sentido dado à ela pois, para o jornal o fato de terem casas desabitadas ou carros estacionados nos terrenos é um fator que tira todo o caráter de luta social do movimento, que desconsidera também as pessoas necessitadas que são maioria e que moram ali. Já para os moradores não há como obrigar ninguém a sair dali ou fiscalizar quem é rico ou não, mas não é por isso que o movimento deve ser desconsiderado, ou que perca sua legitimidade e combatividade.

É importante também ressalta que as reportagens vinculadas à mídia local, principalmente no inicio desta ocupação, atingiam diretamente a vida de seus moradores, pois no inicio da ocupação eram constantes as reportagens que mostravam a ilegalidade da ocupação e a grande possibilidade de reintegração de posse, isso em conjunto com os diversos depoimentos de Guardas Municipais e Policiais Militares acabaram, segundo um relato de Marta sobre o inicio do movimento, causando pânico entre os moradores da ocupação.

 

Lucas: Daquelas reportagens no jornal você viu? O que você achou?
Marta: De qual?
Lucas: Não, qualquer uma que você viu…
Marta: Não, passou uma vez que o pessoal ia ser tirado daqui, que a reintegração de posse… Que o Bubas ganhou aqui, então a gente ia ter que sair, nossa foi desesperador, ninguém dormia, porque um falava que a polícia ia entrar aqui de madrugada que ia derrubar. Uma vez veio um pessoal avisando a gente de lá de baixo, veio batendo de barraco em barraco, de barraco em barraco dizendo que a polícia tava vindo, você pensa, todo mundo saiu pra rua, todo mundo.

Esta acontecimento ocorreu devido, principalmente as diversas reportagens que haviam sido feitas sobre as decisões judiciais tomadas a respeito do movimento, que causaram todo este desespero na população e tiveram que ser levadas para uma assembleia dos moradores, onde um vereador no intuito de acalmar e esclarecer os acontecimentos para os moradores expos: “tudo vai ser resolvido pacificamente, esse processo de: ‘ah vai vir polícia amanha’, não, esse processo antes de vir a polícia quem vai vir aqui falar com vocês sou eu, não vai acontecer de vir policia aqui”. Sendo assim, esse boato de ação da polícia, não surgiu somente pela mídia, mas ela teve papel fundamental em divulgar e causar o temor desses moradores serem despejados.

Creio que é de suma importância realizar uma ultima reflexão a respeito das reportagens da mídia local sobre a ocupação e seus moradores. Reflexão essa que vai no sentido de perceber como, mesmo com o caráter pejorativo dado ao movimento pelo telejornal ParanáTV que vimos anteriormente, a partir das falas dos moradores que estão presentes nestas matérias por vezes eles acabam contradizendo a ideia que o jornal gostaria de passar. Apesar de reduzidas, como o jornal teve a intenção por diversas vezes de mostrar os sujeitos do movimento, não poderiam excluir toda sua participação na matéria, por isso, por mais que fossem editadas as falas, limitando-as, pode-se perceber que os sujeitos veem nas reportagens um espaço para o desabafo e critica aos órgãos públicos, como fica evidente desde a primeira matéria analisada, no ano de 2012:

Janete: nós estamos vivendo no meio do lixo, no meio de insetos, aranha, cobra, já entrou na minha casa, minha casa tá caindo aos pedaço eu já imendei o chão, a água, entra água tudo dentro da minha casa (PARANÁ TV. 2° Edição. Reportagem: 03/08/2012).

O espaço do telejornal aparece também como um espaço de enfrentamento e afirmação de que o que estes sujeitos estão fazendo não é somente “invadir” de forma irregular uma área da cidade, mas sim uma alternativa a sobrevivência que é comprometida com o pagamento de aluguel.

Micheli: “ó o negócio é o seguinte que eu vou te falar, se acauso você não sair da casa, que eles tão, advogado do HabitaFoz tá montando um processo, se você não sair tudo vocês vão perder o cadastro”, pra mim sair aqui de dentro eles vão ter que me dar a minha primeiro pra mim sair reto pa dentro e pra todas as famílias também (PARANÁ TV. 1° Edição. Reportagem: 17/01/2013).

Também aparecem falas que vão em direção totalmente oposta das intenções do telejornal, narrativas que explicitam a real necessidade de se entrar em um lugar que não se é dono e de como a luta não acaba no entrar em um terreno, mas também o  permanecer e ser reconhecido.

 Berenice:Só quero dignidade tê onde eu morar.
Morador: Se eu não tivesse precisando eu acho que eu não taria aqui em cima, eu taria com meus filho hoje nessa, nessa hora.
Moradora: O que eu mais tenho medo é deles vim aqui e tirar agente, daí onde eu vou ficar? Eu não tenho aonde ir.
Morador: É insuportável né? Só que agente precisa, se não agente não estaria aí, estamo esperando uma providência, pra ver se agente consegue alguma coisa aí né? (PARANÁ TV. 2° Edição. Reportagem: 07/02/2013).

Em suma, o que pode-se retirar deste texto carregado de narrativas, tanto dos moradores quanto do telejornal, é de que devemos estar sempre atentos as disputas cotidianas que, literalmente, acontecem diante de nossos olhos, que entram nas nossas casas com um caráter imparcial, mas que na verdade se fixarmos o olhar e pensarmos nos sujeitos envolvidos veremos como a imparcialidade é inexistente, percebendo por consequência quais os sentidos atribuídos a matérias que retratam, por exemplo um movimento de ocupações de áreas urbanas,  e também quais os interesses que levam estes grupos a tratarem deste processo desta maneira.

A mídia local, como já foi dito desde o inicio deste trabalho, se utiliza de diversas artimanhas para tentar deslegitimar movimentos como esses ocorridos na Área do Bubas, que vão de encontro as suas pretensões políticas, econômicas e sociais, de favorecimento e mantimento do poder de uma determinada classe minoritária. É neste sentido que a pequena frase: “Aqui agora vai vendo como a mídia é criminal”, do grupo de Rap de Foz do Iguaçu,  Unidos da Periferia, faz sentido, porque não só se utiliza dos crimes da cidade para atrair o publico e por consequência os ganhos, mas também é responsável por criminalizar sujeitos e movimentos com este mesmo intuito.

Mas não devemos pensar que é somente a mídia que dita as regras da sociedade, pois como vimos neste trabalho, os moradores também tem seus espaços e armas para lutar contra este sentido que ganhou o movimento, logicamente que de maneira reduzida, mas totalmente utilizados, as suas narrativas em entrevistas para o a pesquisa e até mesmo suas falas que não podem ser cortadas do jornal servem para evidenciar que “Nem um terço do que se passa aqui eles mostram na TV”.


Lucas Eduardo Gaspar é acadêmico do curso de História da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (UNIOESTE), vinculado ao Laboratório de Pesquisa Trabalho e Movimentos Sociais.

E-mail de contato: l.e.gaspar@hotmail.com.

 

REFERÊNCIAS:

 ASSEMBLEIA. Foz do Iguaçu. 05/02/2013. Gravada por Lucas Eduardo Gaspar.

GONZALES, Emilio. Cidade, experiência, memória: aspectos sociais na constituição urbana de Foz do Iguaçu; alguns elementos teóricos. ANPUH – XXIII SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA – Londrina, 2005. p.1-8.

JULIA . Entrevista realizada em 03/07/2013, por Lucas Eduardo Gaspar.

PARANÁ TV 1ª EDIÇÃO – FOZ DO IGUAÇU. Área invadida por famílias é desocupada pela Guarda Municipal. PUBLICADO EM 16/01/2013. Visto em 10/10/2013. Disponível em: http://globotv.globo.com/rpc/parana-tv-1a-edicao-foz-do-iguacu/v/area-invadida-por-familias-e-desocupada-pela-guarda-municipal/2348958/

PARANÁ TV 1ª EDIÇÃO – FOZ DO IGUAÇU. Moradores de invasão em Foz do Iguaçu esperam há anos por casa própria. PUBLICADO EM 07/02/2013. Visto em 10/10/2013. Disponível em: http://globotv.globo.com/rpc/parana-tv-1a-edicao-foz-do-iguacu/v/moradores-de-invasao-em-foz-do-iguacu-esperam-ha-anos-por-casa-propria/2392168/

PARANÁ TV 1ª EDIÇÃO – FOZ DO IGUAÇU. Segurança em áreas invadidas deixa outras áreas descobertas pela Guarda Municipal. PUBLICADO EM 17/01/2013. Visto em 10/10/2013. Disponível em: http://globotv.globo.com/rpc/parana-tv-1a-edicao-foz-do-iguacu/v/seguranca-em-areas-invadidas-deixa-outras-areas-descobertas-pela-guarda-municipal/2351098/

PARANÁ TV 1ª EDIÇÃO – FOZ DO IGUAÇU. Moradores de invasão em terreno particular se organizam para pedir moradias. PUBLICADO EM: 07/08/2013. Visto em 10/10/2013. Disponível em: http://globotv.globo.com/rpc/parana-tv-1a-edicao-foz-do-iguacu/v/moradores-de-invasao-em-terreno-particular-se-organizam-para-pedir-moradias/2741604/

PARANÁ TV 2ª EDIÇÃO – FOZ DO IGUAÇU. Famílias que vivem em áreas de invasão fizeram um protesto hoje, na vila C. PUBLICADO EM 03/08/2012. Visto em 10/10/2013. Disponível em: http://globotv.globo.com/rpc/parana-tv-2a-edicao-foz-do-iguacu/v/familias-que-vivem-em-areas-de-invasao-fizeram-um-protesto-hoje-na-vila-c/2073090/

RAFAEL. Entrevista realizada em 13/07/13, por Lucas Eduardo Gaspar.

SANDRA . Entrevista realizada em 27/10/2013, por Lucas Eduardo Gaspar.

SOUZA, Aparecida Darc de. FORMAÇÃO ECONÔMICA E SOCIAL DE FOZ DO IGUAÇU: um estudo sobre as memórias constitutivas da cidade (1970-2008). 2009. 218f. Tese (Doutorado em História Econômica)–Universidade de São Paulo. São Paulo, 2009.

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