Cultura negra, segregação e (in)visibilidade

aPor: Paulo Roberto Rodrigues Soares, professor do Departamento de Geografia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)

Dentre os legados mais importantes da cultura africana à cultura brasileira estão o samba (a música nacional por excelência) e a umbanda (a religião genuinamente brasileira). No nosso Estado Pelotas é talvez a cidade com maior influência cultural de matriz africana. A cidade foi o centro da economia das charqueadas, responsável pelo maior contingente de escravos do RS. São de Pelotas algumas das mais importantes referências da cultura afro-gaúcha, seja na música (Giba-Giba), na cultura (os “clubes culturais negros”) ou nas letras (o jornal A Alvorada).

Contudo, nos últimos anos, o Carnaval e a Festa de Iemanjá, as maiores manifestações da cultura afrodescendente da cidade, estão submetidas à forte oposição. Não nos referimos aqui à postura do Poder Público Municipal com relação a estes eventos. Estamos referindo a uma corrente de cidadãos pelotenses que comentam sobre o Carnaval e as festas religiosas nas redes sociais. Segundo estes o Carnaval é uma junção de “bêbados”, “arruaceiros”, “vagabundos”, os quais promovem toda sorte de violência (vandalismo, roubos, assassinatos), não merecendo apoio do poder público, podendo, inclusive, ser extinto. Já as festas da religiosidade de matriz africana seriam apenas reuniões de “macumbeiros”, onde se promovem “batucadas”, “bebedeiras” e sacrifício de animais.

Vivem estas manifestações um processo de segregação involuntária que está levando as mesmas à invisibilidade em nossa cidade. O Carnaval, a cada ano lida com a rejeição de moradores das proximidades de sua localização. Ninguém é contra, desde que “bem longe da minha casa”. As festas e manifestações da religiosidade de matriz africana sofrem preconceitos e cerceamento de seus rituais, utilizando-se para isso, inclusive, a legislação ambiental e de proteção aos animais.

As festas padecem com a invisibilidade. A cidade não vive mais o seu Carnaval, o qual está segregado a espaços cada vez mais distantes do Centro, seu histórico e tradicional palco. E a segregação gera estranhamento e permite que o caráter cultural se perca em favor de uma folia empobrecida de referenciais. A redução de público e de qualidade é inegável. Outrora um dos melhores do Brasil, o Carnaval pelotense está em decadência, perdendo espaço para outras cidades do interior do Estado (Jaguarão e Uruguaiana, por exemplo).

É preciso um pouco mais de tolerância e compreensão. Em nossa cidade temos dezenas de comunidades que ao longo do ano trabalham pelo Carnaval, cultivam o samba e promovem a cultura popular. Com parcela significativa de adeptos na população e diferentemente das religiões cristãs, a religiosidade de matriz africana inclui em seus rituais a territorialidade, a música, a corporeidade e a festa, os quais são imprescindíveis para a representação da espiritualidade.

A lei 10.639/03 tornou obrigatório o ensino da “história e da cultura afro-brasileira” nas escolas. A lei 12.288/10, o Estatuto da Igualdade Racial, garante em seu capítulo III a liberdade de consciência e de crença e o livre exercício dos cultos religiosos, combatendo a intolerância com as religiões de matriz africana e a discriminação de seus seguidores. Urge resgatar esta legislação em nossa cidade, em nome da tolerância, da diversidade e do reconhecimento do legado da negritude em nossa formação territorial e cultural.

Publicado no Jornal Diário Popular.

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