Quase parada, revitalização do cais do porto ainda gera descrença. (Porto Alegre)

Fonte: Sul21.
 | Foto: Ramiro Furquim/Sul21

Há décadas Porto Alegre espera pela revitalização do cais do porto e dos antigos armazéns que contornam o Guaíba. Em 2010, através de um processo licitatório, o poder público concedeu a área a um consórcio formado por empresas brasileiras e estrangeiras, que desde então é responsável pelas obras. O consórcio Cais Mauá do Brasil S.A. neste momento gerencia a primeira fase dos trabalhos, mas faltam informações e sobram dúvidas sobre os detalhes da revitalização e o que deverá ser construído do outro lado do muro da Avenida Mauá.

O consórcio é composto pelas empresas GGS Holding LTDA, que detém 51% do controle e possui sócios espanhóis, NSG Capital, com sede no Rio de Janeiro e controle de 39% das ações, e Contern Construções, empresa paulista que detém os 10% restantes de participação. Juntos, formam a Cais Mauá do Brasil S.A. que promete entregar parte dos armazéns restaurados antes de junho de 2014, quando terá início a Copa do Mundo, que tem Porto Alegre como uma das sedes.
Apesar da promessa e da estruturação de um consórcio, até o momento são poucas as respostas sobre o futuro do porto. A empresa divulga em suas peças publicitárias que haverá “bares e restaurantes”, “centro comercial”, “espaço para shows e eventos” e “quatro mil vagas de estacionamento” naquele local. Mas até o momento não há efetiva movimentação no local. As obras da primeira etapa foram repassadas em novembro à empresa Procon Construções. O orçamento inicial das reformas iniciais foi estimado em R$ 70 milhões.

 | Foto: Camila Domingues/Palácio Piratini

“A informação dada pela empresa é a de que no mínimo dois armazéns estariam prontos para a Copa do Mundo. Estão iniciando as obras pelo restauro do patrimônio histórico que corresponde à licença recebida e entregue pelo prefeito e pelo governador”, afirmou Edemar Tutikian, secretário do Gabinete de Desenvolvimento e Assuntos Especiais (GADES) da Prefeitura de Porto Alegre. No dia 12 de novembro, em meio ao anúncio oficial do início das obras, a empresa garantiu 11 dos 19 armazéns prontos para o primeiro semestre do próximo ano.
Para além dos armazéns, poucos aspectos foram confirmados. O escritório do arquiteto espanhol Fermín Vázquez mostra no seu site oficial o projeto, ainda de 2011, de como ficaria o cais do porto de Porto Alegre após a revitalização. Orçado em quase 200 milhões de euros (cerca de 600 milhões de reais), o projeto estrangeiro mostra grandes prédios espelhados e espaço para compras na orla do Guaíba. Ainda assim, não há confirmação sobre a vigência da proposta. “As obras fazem parte da segunda etapa do projeto, que ainda depende de projetos arquitetônicos”, disse André Albuquerque, diretor-financeiro da Cais Mauá do Brasil.
Edemar Tutikian confirma a possibilidade da construção do shopping e dos prédios comerciais. “Estas duas partes existem para dar sustentação econômica ao projeto. Isto porque somente a utilização dos armazéns não dá sustentação ao projeto. Quem iria investir num projeto que não tem uma modelagem baseada na sustentabilidade?”, ponderou o secretário. É grande a dificuldade de se obter informações da empresa que assumiu o controle do local. A reportagem tentou entrevistar os diretores da Porto Cais Mauá durante vários dias, mas obteve apenas uma breve resposta por e-mail.

Ramiro Furquim/Sul21

A empresa mantém uma sede junto aos armazéns portuários, mas não recebe a imprensa no local – da mesma maneira, seguranças particulares proíbem a caminhada pela área. Um dos trabalhadores que passava pelos galpões disse que “não há quase nada de movimentação” até o momento, e que a atividade estaria quase restrita a “ações publicitárias”. “Isso aqui não é Buenos Aires, não é a Espanha. Não sei se vai sair do papel”, disse. No último fim de semana, a privatização do cais do porto foi alvo de uma manifestação política e cultural na cidade. O coletivo Defesa Pública da Alegria e o Movimento Nacional da Luta pela Moradia (MNLM) levaram centenas de pessoas ao cais.
A presença dos manifestantes na orla, no entanto, foi barrada pela empresa. “Praticamente toda a área do cais está fechada. Quando perguntamos para os seguranças sobre os motivos, eles dizem que agora a área é privada. O pessoal foi até o pórtico e não pôde entrar. Depois a empresa justificou que o acesso está restrito porque as obras estão começando, mas não há sinais de obras e as primeiras reformas são muito pequenas”, contou Pepe Martini, integrante do coletivo Defesa Pública da Alegria. Na opinião de Pepe, a revitalização está sendo feita “às escondidas”. “O problema inicial é que não houve discussão pública desta reforma que a cidade espera há décadas”, contestou.
André Albuquerque, representante do consórcio, escreveu que “ainda há um desconhecimento por parte da sociedade organizada sobre o real projeto do cais Mauá a partir de sua revitalização”. “Mas podemos garantir que Porto Alegre e sua população não serão, de maneira alguma, apartados da relação com a área e com o seu rio”, disse o diretor-financeiro. A empresa afirma que encomendou uma pesquisa que busca “conhecer melhor o sentimento da população gaúcha com relação ao mix das operações que deverão ser instaladas na área”.
O contrato de arrendamento do espaço prevê a administração da área pela Cais Mauá do Brasil S.A. por 25 anos – com a possibilidade de renovação por mais 25. Edemar Tutikian garante que a Prefeitura de Porto Alegre irá fiscalizar a atuação privada “para saber se as regras predeterminadas estão sendo cumpridas” conforme o acordo. Pepe Martini, por sua vez, acredita que a revitalização – nestes moldes – acabará por elitizar o espaço portuário. “O espaço precisa ser democrático, popular, e não apenas de alta gastronomia para a elite de Porto Alegre. Não queremos uma Padre Chagas na beira do Guaíba”, opinou.
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