Réquiem para as pequenas cidades?

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Fonte: GeocritiQ

A análise de dados do último recenseamento demográfico realizado no Brasil em 2010 mostra que aproximadamente 100 de 165 municípios da região Noroeste do Paraná tem perda de população. Esse processo acontece em uma área caracterizada por densa presença de pequenas cidades. Ainda que o declínio demográfico muitas vezes não afete a área intraurbana, os pequenos núcleos são afetados na sua centralidade e seu papel de localidade central. O declínio demográfico é um processo que se mantêm nos municípios polarizados por pequenas cidades dessa região do Paraná há cinco décadas. Estudos de outras regiões e países tem nos mostrado que essa tendência pode ser considerada como universal: pequenas cidades localizadas em áreas dispersas, distantes de áreas metropolitanas e de cidades médias parecem ter seus papéis e significados questionados atualmente.

O DECLÍNIO DEMOGRÁFICO É UM PROCESSO QUE SE MANTÊM NOS MUNICÍPIOS POLARIZADOS POR PEQUENAS CIDADES DESSA REGIÃO DO PARANÁ HÁ CINCO DÉCADAS

Observamos essa tendência no Noroeste do Paraná desde que intensas transformações econômicas foram desencadeadas. Ela teve uma economia baseada no café produzido em pequenos estabelecimentos agropecuários e com uso intenso de trabalho. Esse arranjo produtivo trazia grande densidade demográfica. Uma rede de pequenas cidades foi planejada por empresas colonizadoras, principalmente nas décadas de 1940 e 1950. Esses núcleos, embora muito pequenos, detinham claros papéis: eram localidades centrais, onde a densa população supria suas necessidades básicas.

Noroeste do Paraná-Brasil. Dinâmica demográfica, 1970-1980

3_foto Angela Endlich

De 1970 a 1980 fatores circunstanciais e locais se somaram a outros estruturais e conjunturais, provocando transformações econômicas, com substituição dos cultivos, mas, sobretudo, mudanças que trouxeram para a região uma economia socialmente menos inclusiva. A pequena produção regional não conseguiu sobreviver a lógica competitiva do mercado mundialA nova economia já não facilitava a manutenção dos pequenos estabelecimentos agropecuários e uso intensivo de trabalho. O resultado foi  significativa perda de população. Foi nessa década que o processo de esvaziamento foi mais intenso na região (ver mapa). Essa tendência prossegue, ainda que com taxas de esvaziamento menores nas décadas seguintes. Registra-se contínua mobilidade espacial da população em direção aos centros regionais e cidades médias como Maringá, além de Curitiba, a capital do Estado do Paraná. Como mencionamos, esse não é um processo exclusivo dessa região. A partir do seu estudo, encontramos referências a processos similares em outras partes do Brasil e do mundo.

A outra face dessa mobilidade são as imensas e cada vez mais precárias periferias urbanas que vem se formando em áreas metropolitanas e em algumas cidades médias. Isso é preocupante. Não só caminhamos para um mundo cada vez mais urbano, no seu sentido mais contraditório e precário, como a materialização territorial desse crescimento são áreas muito problemáticas, especialmente na perspectiva social.

ALI TUDO FOI, NADA É

Obviamente são necessárias políticas territoriais significativas para reverter essa tendência. A ausência de uma política explícita não significa inexistência dela, já que tem predominado a política territorial patrocinada pelas dinâmicas do capital. A realidade aqui indicada não significa que a região esteja estagnada economicamente. Ao contrário, foi uma economia modernizada que provocou as mudanças. Portanto, a crise dessas pequenas cidades deve ser entendida como parte de uma crise social. Tais dinâmicas fazem com que muitas pequenas localidades, consideradas especialmente como espaços sociais, só conjuguem verbos no passado: “ali tudo foi, nada é”, como afirmou um escritor muito conhecido no Brasil chamado Monteiro Lobato, autor de obra literária denominada “Cidades Mortas”.

Preparamos um réquiem para as pequenas cidades?

Mais informações em:

ENDLICH, A.M. Pensando os papéis e significados das pequenas cidades. São Paulo: Editora da Unesp, 2009.

Angela Maria Endlich é Professora DGE/Universidade Estadual de Maringá e Bolsista CNPq/Pós-doutorado – Universidade de Barcelona.

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