Nota da DEN-AGB sobre as Manifestações Populares de Junho de 2013

A Diretoria Executiva Nacional da Associação dos Geógrafos Brasileiros vem acompanhando as lutas e as manifestações que estão ocorrendo por todo o Brasil nas últimas semanas.
Consideramos que o Brasil passa por um momento de efervescência política no qual estão aflorando as profundas contradições que marcam o país. A luta dos povos originários e camponeses contra a expansão do agronegócio, as greves nos canteiros de obras do PAC, a resistência aos despejos e remoções causados pelas obras de infraestrutura relacionadas aos megaeventos (Copa das Confederações, Copa do Mundo e Olimpíadas), pela especulação imobiliária e pelos grandes projetos de desenvolvimento são demonstrações de uma insatisfação crescente da população brasileira que agora se materializa no momento em que milhões de pessoas vão às ruas.
A AGB vem há tempos participando ativamente da construção dessa resistência, contribuindo com debates, reflexões, textos e relatórios, seja nos Encontros Nacionais de Geógrafos (ENGs), onde estas questões têm sido sistematicamente debatidas, seja no cotidiano das Seções Locais. Relatórios como os da AGB-Porto Alegre contra as remoções urbanas, da AGB-Viçosa sobre os impactos do mineroduto da Ferrous ligando Minas Gerais ao Espírito Santo, da AGB-Vitória contra a Coca-Cola/Sucos Mais e das AGBs Rio e Niterói sobre o Porto do Açu de Eike Batista, são alguns exemplos dessa contribuição e estão disponíveis na página da AGB (agb.org.br). Da mesma forma, a Revista Terra Livre tem, desde 2010, uma Seção destinada a publicar textos provenientes de seus Grupos de Trabalho que é mais um canal de divulgação dessas ações.
Na atual conjuntura, onde as manifestações se multiplicam e ganham caráter massivo, consideramos fundamental reforçar nossa contribuição para essa luta em prol de uma sociedade mais democrática, justa e igualitária. Neste sentido, denunciamos a manobra das grandes corporações midiáticas, lideradas pela Rede Globo, que inicialmente buscaram fazer o de sempre: criminalizar as manifestações para justificar a repressão às mesmas, como parte da estratégia de criminalização da pobreza e das lutas e movimentos sociais. Com o fracasso da estratégia tradicional e generalizada de repressão e o crescimento das manifestações impulsionadas pela rejeição à violência policial e pelas conquistas inicialmente obtidas, agora as grandes corporações midiáticas se voltam para a tentativa de conduzir as manifestações, dividindo-as entre: (1) as pacíficas e legítimas – as que colorem as ruas de verde e amarelo e adotam pautas genéricas, como ser contra a “corrupção” (todos são contra a corrupção, o problema é se o tratamento dado à questão é meramente moralista, como se fossem o resultado de desvios de conduta de pessoas ou de partidos políticos, ou se associa a corrupção às estruturas e formas de dominação econômica e política do capital, o que evidentemente a mídia corporativa não faz, afinal ela é tão sócia dos lucros dos grandes eventos, quanto as empreiteiras que estão superfaturando os gastos com as obras, por exemplo); (2) as violentas e ilegítimas – as que descambariam para o vandalismo e a depredação do patrimônio, como vocifera cotidianamente a mídia corporativa.
O fato é que as manifestações passaram a ser disputadas entre esquerda e direita. Entre as pautas concretas e objetivas relacionadas ao sofrimento cotidiano dos trabalhadores brasileiros nas escolas, postos de saúde, moradia e transporte precários, mas que refletem a natureza profundamente desigual e injusta da sociedade brasileira; e as pautas genéricas (não à corrupção) ou pontuais (contra a PEC 37) que obscurecem a natureza de classe dos conflitos instaurados nas ruas brasileiras.
Junto com a mídia corporativa, também a polícia e os governos de turno mudaram a estratégia e passaram a apoiar e tentar dar o tom das manifestações, numa clara tentativa de manipular a pauta das reivindicações e preparar o caminho para a retomada do controle da situação pelos setores mais conservadores.
Assim, as manifestações vêm aumentando, mas também sendo tomadas por palavras de ordem nacional-ufanistas, reivindicações pulverizadas e um pacifismo idealista que descaracteriza o enfrentamento aos problemas sociais que, de fato, levaram o povo às ruas. As revoltas que se iniciaram com as lutas contra o aumento das tarifas de transporte nas grandes cidades – e que ganharam visibilidade nacional e internacional em meio à Copa das Confederações (ou Copa das Manifestações, como a sabedoria popular a rebatizou) – trouxeram à tona inúmeras reivindicações que hoje condensam a luta dos setores populares no Brasil:
1.      A luta pelo transporte público gratuito e de qualidade – capitaneada pelo Movimento Passe Livre (MPL) que tem o mérito de ter acendido o rastilho de pólvora das manifestações – que por sua vez traz consigo a discussão sobre o direito a uma cidade mais igualitária e menos segregada através da proposta de Tarifa Zero.
2.      A luta por educação e saúde públicas, gratuitas e de qualidade e contra os processos de privatização e mercantilização em curso nessas áreas e que se materializam na reivindicação de 10% do PIB para a Educação Pública e no fortalecimento do SUS sob o controle popular.
3.      A luta contra os despejos e remoções na cidade e no campo para dar lugar à expansão dos grandes empreendimentos capitalistas – que trazem junto consigo a revitalização da luta pelas reformas agrária e urbana.
4.      A luta contra os gastos exorbitantes em obras para os megaeventos, sobretudo a Copa do Mundo e as Olimpíadas.
Nesse sentido afirmamos nosso apoio e solidariedade a todos os movimentos que estão nas ruas lutando por um Brasil mais justo, igualitário e democrático.
Todo apoio às lutas dos oprimidos!
Contra a criminalização dos movimentos sociais!
Nos encontramos nas ruas, em diferentes cidades!
Desejamos muita força na luta!
Associação dos Geógrafos Brasileiros
Diretoria Executiva Nacional – Gestão 2012-2014
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