CATALÃO: o fenômeno do desenvolvimento econômico em Goiás (*)

Gabriel de Melo Neto

Professor Mestre do Departamento de Geografia da Universidade Federal de Goiás – Campus Catalão e Presidente da Associação dos Geógrafos Brasileiros (AGB) Seção Catalão.

Nos últimos anos tem sido constante a divulgação de informações sobre as potencialidades econômicas de Catalão, recebendo destaque inclusive na mídia nacional, não sendo raras também, informações no cenário internacional (por exemplo, em 2010 o site WikiLeaks divulgou uma “lista secreta” do governo Estadunidense, a qual mostrava um alto interesse na cidade, devido as suas reservas minerais). Tal situação tem representado fator de satisfação para gestores públicos, devido às altas arrecadações de impostos – o município possui uma das maiores arrecadações Per capita de Goiás – para o comércio local, incluindo todo o setor de serviços que é uma referência regional, aos trabalhadores, diante da grande oferta de empregos. E principalmente, para os empresários que são os maiores beneficiados que veem as suas taxas de lucros cada vez mais ampliadas diante dos investimentos realizados.

Os recentes anúncios da ampliação de investimentos no parque industrial, sobretudo no setor automobilístico – uma única empresa divulgou em abril/2012 investimento na ordem de 1,2 bilhão – e da produção minero-química – a gigante Vale, realizou em 2010 a compra de uma grande mineradora da cidade e tem anunciado juntamente com outras empresas do ramo, significativa ampliação da produção – sem ignorar o agronegócio que através da DuPont Pioneer instalou em  novembro/2012 uma de suas maiores unidades produtoras de sementes no mundo, notícias que deixam claro que o ciclo de pujança econômica de Catalão, continua em franco progresso. No entanto, pode parecer contraditório, mas essa é uma situação preocupante para a sociedade local, frente a diferentes impactos sociais e ambientais que visivelmente são percebidos na cidade.

Ao longo da última década é inquestionável o crescimento econômico e populacional de Catalão. O município sofreu transformações profundas, principalmente diante da instalação/consolidação de duas montadoras (Mitsubishi e John Deer) e da ampliação da produção mineral, atualmente concentrado 9,33% de toda produção goiana, representando a 3ª maior partição do estado, com destaque para o Nióbio e o Fosfato (DNPM/2010), situação que conferiu ao município importantes “títulos”, “5ª maior economia do estado de Goiás (atingindo a sua melhor posição em 2005, ficando atrás apenas de Goiânia e Anápolis)”, “melhor índice de qualidade de vida no estado de Goiás segundo a FIRJAN” – segundo edição da pesquisa publicada em 2008, com dados do ano base 2005. Contudo, na última edição, de forma surpreendente caiu para a 31ª posição – “3º maior parque industrial do estado de Goiás” (SEPLAN/GO/2011), entre outros indicadores econômicos que atualmente causam inveja a qualquer cidade brasileira.

Todavia, o “outro lado da moeda” – os aspectos socioambientais – não tem recebido o mesmo destaque pelos diferentes veículos de imprensa, situação similar à posição dos gestores públicos, sobretudo, dos órgãos que tem a finalidade de garantir o cumprimento dos mecanismos de controle ambiental, bem como da qualidade de vida da sociedade e de forma especial dos trabalhadores das empresas instaladas no município (doenças/lesões associadas às atividades profissionais vem constituindo-se em questão crítica na cidade).

Entre outros problemas socioambientais existentes em Catalão destaca-se a poluição atmosférica que tem causado relevantes prejuízos a saúde da população, principalmente das crianças, idosos e pessoas com problemas respiratórios. O caso é tão grave que é comumente relatado pela população em geral, “um estranho odor no ar” em praticamente toda a cidade, cuja a(s) fonte(s) emissora(s)  possivelmente, está relacionado as atividades minero-químicas. Após inúmeras manifestações, abaixo-assinados, denúncias em diferentes órgãos, entre outras ações populares, o Ministério Público goiano está promovendo um processo de investigação.

A especulação imobiliária é outro grande problema já que o mercado imobiliário encontra-se aquecido, com investimentos vultosos. Para se ter uma ideia, apenas nos últimos dois anos foram lançados aproximadamente 15 loteamentos. Todo esse processo tem sido realizado de “forma nebulosa” e no atropelo da lei. Uma grande evidência de tal fato, foi a modificação no Plano Diretor do município, no qual sem qualquer debate com a sociedade ou realização de estudos técnicos, aprovou-se a ampliação do Perímetro Urbano em tempo recorde – menos de duas semanas – conforme Lei Municipal n° 2.821/11, motivando a proposição de Ação Civil Pública em outubro/2012 pelo MP/GO .  A questão imobiliária tem provocado fortes impactos na economia local, diante da grande valorização de terrenos/imóveis e no custo dos aluguéis que tem sacrificado principalmente as famílias com baixo poder aquisitivo. Sem ignorar ainda os prejuízos sobre a degradação das áreas verdes que são incorporadas e no caos que tem se transformado a organização urbana do município.

Diante da exposição, salienta-se que é inegável os benefícios gerados para os “índices econômicos” do município, no entanto, o preço pago por esse modelo de desenvolvimento, no mínimo deve provocar algumas reflexões frente os nítidos e graves problemas ambientais e sociais já existentes e os anunciados para um futuro próximo em Catalão.

limite urbano

Alteração do perímetro urbano de Catalão. Abril 2011. Fonte: Gabriel de Melo Neto.

(*) Artigo de Opinião publicado no Jornal O Popular na edição do dia 05 de fevereiro de 2013.

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